O Carnaval de Salvador costuma ser contado pelas imagens que brilham.

O trio elétrico. O artista. A multidão. A avenida tomada. A música que atravessa a cidade e faz parecer que, por alguns dias, tudo é festa.

Mas nenhuma festa existe sozinha.

Para que milhares de pessoas ocupem as ruas, uma rede inteira trabalha. Há quem monte estrutura, carregue equipamento, produza, limpe, cozinhe, organize, cuide, venda, vigie, conduza e sustente aquilo que o público vê.

Entre essas pessoas estão os cordeiros e as cordeiras.

São trabalhadores fundamentais para o carnaval de trio elétrico em Salvador. Seguram a corda que delimita o espaço dos blocos, ajudam a organizar o fluxo e permanecem durante horas expostos ao calor, à pressão da multidão, ao esforço físico e a uma cidade que, muitas vezes, só enxerga a festa depois que o trabalho já foi escondido.

A pergunta não é apenas quem segura a corda.

É por que precisamos aprender a olhar para quem quase nunca aparece no centro da fotografia.

A festa também é trabalho

Existe uma tendência a imaginar a cultura apenas como expressão, celebração e espetáculo.

Mas cultura também é trabalho.

Uma festa popular de grande escala depende de pessoas, jornadas, remuneração, condições concretas e relações de poder.

Quando olhamos apenas para a superfície, corremos o risco de romantizar aquilo que alguém sustenta com o próprio corpo.

O Carnaval de Salvador produz imagens de liberdade. Ao mesmo tempo, expõe fronteiras.

Dentro e fora da corda.

Quem paga e quem trabalha.

Quem aparece no alto do trio e quem permanece no nível da rua.

Quem é reconhecido como parte do espetáculo e quem é tratado como parte da infraestrutura.

Essas fronteiras não anulam a potência da festa. Mas fazem parte dela.

A invisibilidade não é ausência

Dizer que um trabalhador é invisibilizado não significa que ele não esteja presente.

Ao contrário.

Muitas vezes, ele está exatamente no lugar mais visível, diante de todos, e ainda assim não é percebido como sujeito.

Vemos a corda.

Nem sempre vemos a pessoa.

Vemos a função.

Nem sempre vemos o cansaço, a história, o nome, a família, o repertório e a vida de quem está ali.

A invisibilidade social funciona assim: determinadas pessoas são vistas apenas pelo serviço que prestam.

Isso acontece em muitos espaços. Com trabalhadoras domésticas. Com profissionais de limpeza. Com entregadores. Com seguranças. Com pessoas que montam palcos, descarregam caminhões e preparam eventos.

No carnaval, essa contradição ganha força porque a festa é celebrada como encontro coletivo, mas nem todas as pessoas participam dela nas mesmas condições.

A corda também organiza a cidade

A corda separa espaços.

Essa é sua função imediata.

Mas, quando olhamos com mais atenção, ela também pode ser lida como uma imagem das desigualdades da cidade.

Quem está dentro?

Quem está fora?

Quem paga para ocupar um espaço protegido?

Quem é pago para garantir essa separação?

Que corpos suportam o esforço físico dessa fronteira?

Não é preciso transformar cada metro de corda numa metáfora absoluta sobre Salvador. A realidade é mais complexa do que qualquer símbolo.

Mas a literatura e a reflexão cultural podem fazer perguntas que o espetáculo tende a evitar.

É justamente esse movimento que aparece em [A]CORDA, livro de Zé Ricardo Ferreira publicado em 2025. Por meio do personagem Coió, a obra reúne invenção, histórias ouvidas e experiências que ajudam a retirar cordeiros e cordeiras do lugar de figurantes da festa.

Eles passam a ocupar a narrativa.

Raça e trabalho não são questões separadas

Quando falamos de trabalhos invisibilizados no Brasil, é impossível ignorar a dimensão racial.

A história do país organizou de forma desigual quem ocupa os trabalhos mais valorizados, quem recebe reconhecimento e quem sustenta atividades essenciais em condições mais precárias.

No carnaval, como em outros espaços, raça, classe e território se atravessam.

Isso não significa presumir a história individual de cada trabalhador.

Significa observar um padrão social maior.

Quem costuma estar nos postos de maior prestígio?

Quem aparece como protagonista da indústria cultural?

Quem ocupa funções de esforço intenso e baixa proteção?

Quem tem sua presença naturalizada a ponto de deixar de ser percebida?

Fazer essas perguntas não diminui a festa.

Ajuda a enxergá-la inteira.

Cultura popular também precisa olhar para quem a sustenta

Às vezes, defendemos a cultura popular como se bastasse celebrar suas expressões.

Mas valorizar cultura também deveria significar valorizar as pessoas que a tornam possível.

Isso envolve memória, reconhecimento e visibilidade.

Envolve também condições materiais.

Não adianta transformar trabalhadores em personagens simbólicos e esquecer que eles continuam sendo trabalhadores.

Toda homenagem que não chega às relações concretas corre o risco de ser apenas decoração.

Por isso, falar dos cordeiros e cordeiras não deveria acontecer apenas como curiosidade de bastidor.

Eles fazem parte da história do carnaval.

Fazem parte da história do trabalho na cidade.

Fazem parte da memória cultural de Salvador.

O que escolhemos lembrar

A memória de uma cidade é feita por seleção.

Algumas imagens entram nos livros, documentários, campanhas e arquivos. Outras desaparecem.

Alguns nomes se tornam monumento. Outros permanecem anônimos.

Quando a literatura escolhe narrar quem costuma ser deixado à margem, ela não está apenas acrescentando um personagem.

Está disputando memória.

Está dizendo que aquela vida também merece linguagem.

Que aquele corpo também tem história.

Que aquele trabalho também faz parte da cidade.

Talvez seja essa uma das perguntas mais importantes diante de uma grande festa popular.

Quem estamos celebrando?

E quem está trabalhando para que a celebração exista?

O Carnaval de Salvador pode continuar sendo música, encontro, invenção e alegria.

Mas será mais inteiro quando aprendermos a enxergar também quem segura a festa com as próprias mãos.